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Porto Alegre, segunda-feira, 23 de Setembro de 2019

  • 18/07/2014
  • 19:39
  • Atualização: 20:04

Gaúchos lamentam a morte de João Ubaldo Ribeiro

Pesquisadoras, escritor e crítico gaúchos lembram da trajetória e da amabilidade do escritor baiano

Trajetória de escritor baiano é lembrado por gaúchos  | Foto: Mauro Schaefer / CP Memória

Trajetória de escritor baiano é lembrado por gaúchos | Foto: Mauro Schaefer / CP Memória

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  • Luiz Gonzaga Lopes / Correio do Povo

A morte de João Ubaldo Ribeiro ocorrida no Rio de Janeiro, na madrugada desta sexta-feira, em decorrência de uma embolia pulmonar, foi lamentada pela comunidade literária gaúcha.

 

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O escritor Leonardo Brasiliense foi homenageado pela 23ª Feira do Livro de Santa Cruz, em 2010, quando João Ubaldo foi patrono. Os dois conviveram por dois dias a fio, naquela que foi uma das últimas passagens do autor de "Sargento Getúlio" e "A Casa dos Budas Ditosos" por solo gaúcho. "Eu conheci ele em Santa Cruz. Era uma pessoa de uma simpatia ímpar, simples, amável, o sucesso nunca subiu à cabeça. Um dos nossos assuntos é que ele gostava muito de fotografar. Ele gostava mais das máquinas mecânicas e eu fiz muitas fotos dele e da mulher que eu publiquei no meu blog e consegui entregá-las a ele em papel fotográfico. Depois, nos correspondemos algum tempo por e-mail e ele disse que tinhas ótimas lembranças de Santa Cruz e que gostaria de voltar", revela Brasiliense.

A professora, pesquisadora e pós-doutora em Letras, Zilá Bernd, lembra que todos os leitores de literatura brasileira lamentam o desaparecimento de João Ubaldo. "Ele é autor de uma obra que reflete o profundo desejo de captar a alma do povo brasileiro em sua diversidade, a partir de suas raízes orais e escritas, resgatando vestígios da cultura afro-brasileira por longo tempo minimizadas pela elite letrada brasileira. Com generosa delicadeza, aprende a dar importância ao detalhe, ao que foi marginalizado e desprezado pelo sistema", salienta.

A longevidade da obra de João Ubaldo é destacada por Zilá: "Podemos sem sombra de dúvida afirmar que a obra de João Ubaldo Ribeiro será lida por muitos anos no Brasil e nas inúmeras línguas para as quais foi traduzida por ter tido a capacidade de criar uma escrita mestiça que, inspirando-se dos falares populares, é completamente reinventada, construindo-se no entrecruzamento do erudito, do arcaico e da retórica barroca, traduzindo e recompondo a oralidade praticada no Recôncavo, mesclando temáticas filosóficas com tópicos extraídos das religiões afro-brasileiras e imbricando conteúdos históricos com o legendário e o mitológico". Zilá vai mais adiante quando lembra de uma de suas principais obras: "Viva o Povo Brasileiro, a obra através da qual João Ubaldo Ribeiro será lembrado e que o credencia a ser reconhecido como um dos grandes intérpretes do Brasil e dos brasileiros, é um romance que, por sua extraordinária riqueza, pode ser lido como contra-discurso histórico, recontando a história do Brasil do ponto de vista dos escravos e oprimidos, e como sátira à falsa cultura das elites".

A professora de Literatura do Instituto de Letras da Ufrgs, Liliam Ramos, defendeu dissertação de mestrado na Ufrgs, sob orientação de Zilá, com o título (Re)contando a história: a (re)construção da identidade negra em Viva o Povo Brasileiro e Changó, el Gran Putas". Ela lembra que João Ubaldo era grande leitores de clássicos desde a infância, por influência do pai, e costuma inspirar-se em figuras conhecidas da Ilha de Itaparica para compor suas personagens. "Sua ficção caracteriza-se pela releitura da história através da ótica popular na tentativa de reabilitar o mito e dar voz aos subalternos. Para mim, uma das grandes obras da literatura brasileira é Viva o povo brasileiro, traduzida em vários idiomas e tema de samba-enredo da Império do Tijuca no Carnaval do RJ em 1987, na qual o autor, em mais de 700 páginas, usa da sátira e de situações cômicas para (re)escrever a história do Brasil.

Situando-se em um polo oposto ao da história oficial, a narrativa se mostra contra a historiografia tradicional e sua cumplicidade com o poder, questionando a história que silenciou o movimento vivo e plural da memória coletiva" aponta Liliam. Lembrando a epígrafe de "Viva o Povo Brasileiro": “O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias” , Liliam diz que o grande legado da obra do autor baiano foi "nos deixar estas histórias populares que, verdadeiras ou não, formam a identidade do povo brasileiro".

O crítico literário e escritor Paulo Bentancur lembra da peculiaridade do humor do autor baiano. "O que tenho a dizer é que ele, além de realizar um radical trabalho estilístico, em termos de linguagem, tinha humor, o que é muito raro nesse tipo de escritor", ressalta.

O velório do escritor está sendo realizado no Salão dos Poetas Românticos, na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 34. O enterro será na manhã deste sábado, no mausoléu da ABL no cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

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