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23/08/2014 12:28 - Atualizado em 23/08/2014 12:44

Dois bambas em plena harmonia

Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda unem tradições e referências musicais em “Bossa Negra”

Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda estão lançando o álbum Bossa Negra <br /><b>Crédito: </b> Rafaê Silva / Divulgação / CP
Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda estão lançando o álbum Bossa Negra
Crédito: Rafaê Silva / Divulgação / CP
Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda estão lançando o álbum Bossa Negra
Crédito: Rafaê Silva / Divulgação / CP

Um traz no sangue a tradição do samba carioca e é cheio de suingue. O outro é herdeiro musical de um dos maiores instrumentistas brasileiros de todos os tempos, nascido e criado em outra tradição, a do choro. Diogo Nogueira, filho do saudoso João, e Hamilton de Holanda, o “novo” Jacob do Bandolim, estão agora unidos no álbum “Bossa Negra”, lançamento da Universal Music.

Essa reunião de tradições, de dois bambas da música nacional, nasceu a partir de um encontro casual mas que era desejado pelos dois há algum tempo. De uma coincidência de agendas em Miami, nos EUA, ainda em 2009, Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda promoveram o primeiro encontro musical somente dos dois no palco. Sem a possibilidade de ensaiar, o repertório tinha de ser de músicas que ambos conheciam. A “liga” deu tão certo que tinha que se transformar numa parceria de verdade e, claro, num disco.

“No final do show a gente ficou tão empolgado, rolou uma sintonia muito forte”, diz Hamilton. “Na realidade ali mesmo a gente já começou a falar de canções que tinham a ver com o que a gente deveria trilhar”, completa Diogo. “De alguma maneira, os afro-sambas do violonista Baden Powell e de Vinicius de Moraes eram meio que o assunto central e a gente falava sempre neles, e o nome ‘Bossa Negra’ surgiu daí”, emenda Hamilton, empolgado. Os afro-sambas de Baden e Vinicius foram lançados em 1966 e até hoje o disco é considerado como um divisor de águas na MPB. “Os afro-sambas são a grande influência, aquela coisa da levada da batucada africana que o Brasil tem”, diz Diogo.

E isso se reflete também na formação que está presente no disco. “Não foi muito pensado. O que dava pra resolver era o que a gente tinha mais perto, minha formação de trio, aquela percussão do Thiago da Serrinha que na verdade é bem bossa negra. Ele traz a percuteria, que é um atabaque, um repique de anel, uma caixa de escola de samba e um surdo virado para tocar em pé, além do caxixi, tamborim, instrumentos basicamente brasileiros. E o contrabaixo que se aproxima da bossa. O bandolim faz o papel de um piano, como um instrumento de harmonia”, relata Hamilton.

Mas esse trabalho em conjunto também tinha um imposição de ambos: a maior parte dele deveria ser autoral. E as canções foram nascendo e parcerias foram se juntando a esse processo, em nomes como Arlindo Cruz, Marcos Portinari, Thiago da Serrinha e Fred Camacho, entre outros. O disco reúne a essência musical de cada um, resumida na faixa-título, com sua levada de samba-enredo, e retificada na inclusão de releituras para “Desde que o Samba É Samba”, de Caetano Veloso, mais cadenciada e com o tal suingue na voz de Diogo; em “Risque”, clássico de Ary Barroso; na bela letra de “Mundo Melhor”, de Pixinguinha e Vinicius; e em “Mineira”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, canção dedicada à imortal Clara Nunes que, assim como Elza Soares, é outra que carrega a síntese da bossa negra.

Outro destaque do álbum é a inclusão da inédita “Salamandra”, também de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. “Essa música é um achado. Quando fui gravar meu primeiro trabalho, o Paulinho tinha me mandado essa canção. Só que eu ia gravar com o Paulinho Albuquerque. Semanas depois de ter acertado a gravação, ele faleceu, e a fita que estava com ele se perdeu. Isso em 2006, 2007. A música ficou na minha memória. Quando chegou a vez de gravar o ‘Bossa Negra’, eu comentei com o Hamilton sobre ela, que disse que ela tinha tudo a ver com o trabalho”, conta Diogo, que mais tarde recuperou a canção com o Paulo César Pinheiro, que guarda tudo em fitas K7.

O processo de composição, segundo os dois músicos, foi bastante natural, sem determinar em que momento o bandolim de Hamilton falaria mais alto ou a voz de Diogo receberia mais atenção. E teve até canção finalizada por aplicativo de celular, como o caso de “Brasil de Hoje”. “A gente precisava finalizar o disco, era o último dia de gravação. O Arlindo Cruz estava em Belém do Pará (Diogo imita o Arlindo falando e mostra no telefone as mensagens trocadas pelo aplicativo), e foi trocando mensagens de voz que a canção foi fechada.”. O mesmo aconteceu com “Bicho da Terra”. “Boa parte da letra eu fiz com o Bruno Barreto assim”, completa Diogo. Essa modernidade encontra eco no conceito do trabalho. “O povo brasileiro nasceu da miscigenação. Se a música for pura, não vai dar certo. A música sempre vai ter sopros renovadores”, sentencia Hamilton de Holanda.



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Fonte: Daniel Soares / Correio do Povo






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