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  • 14/07/2017
  • 16:07
  • Atualização: 16:37

Christopher Nolan critica Netflix e defende exibição de filmes apenas nos cinemas

Diretor de "Dunkirk" classifica como heresia assistir a seu novo longa na tela de um computador

Para o cineasta, Netflix é apenas uma moda | Foto: Divulgação / CP

Para o cineasta, Netflix é apenas uma moda | Foto: Divulgação / CP

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  • Correio do Povo

Christopher Nolan é uma personalidade que divide opiniões no mundo do cinema. Apontado como o novo Kubrick por alguns críticos e fortemente desaprovado por outros, o diretor britânico mantém uma postura purista em relação à Sétima Arte e não faz questão em se adaptar às novas tecnologias. Tanto é que seu mais novo filme, "Dunkirk", que estreia no Brasil em 27 de julho, foi rodado numa combinação de IMAX 15/70mm e Super Panavision 65 mm, formatos desenvolvidos antes mesmo dos anos 1970. Em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, o realizador fomentou ainda mais a discussão iniciada no Festival Cannes com a exibição do longa "Okja", da Netflix. Para o cineasta, o serviço de streaming é apenas uma moda passageira e suas produções não podem ser consideradas filmes.

"A televisão existe desde os anos 50 e a Netflix é televisão. Quem se importa com a Netflix? Não faz diferença para ninguém, não é nada mais que uma moda, uma tempestade em copo d´água. Qual é a definição de um filme? O que é um filme? Algo que dura duas horas? É um gênero específico?", questinou Nolan. "O que sempre definiu um filme foi o fato de ser exibido nos cinemas. Nem mais, nem menos. O fato de a Netflix fazer filmes para televisão que competem no Oscar ou no Festival de Cannes significa apenas que o cinema está sendo utilizando como ferramenta promocional. Agora, se eu fosse o diretor de um festival, não aceitaria os filmes da Netflix porque eles não são filmes", opinou.

Nolan insiste em lutar por aquilo que ele considera uma experiência única. "O que se vive na escuridão do cinema é impossível viver em qualquer outro formato. E a tecnologia, ao contrário do que está sendo feito, ajuda a aprofundar esta ideia", diz ele. Para o cineasta, que já declarou que aquelas que não gostaram de seu longa "Interestelar" não entenderam o filme, é a única e exclusiva forma de se obter fruição: "minhas obras favoritas são aquelas que só podem ser filmes, como 'Ouro e Maldição', de Erich Von Strohei. Ou como muitos outros nos primeiros dias do cinema mudo. Ou Kubrick. Eles são todos os filmes e nada mais, são puramente cinematográfica. Eles nunca poderiam ser contados como série de TV no rádio. E quando isso acontece, quando você vê na TV, e são outra coisa".

Como cineasta, ele garantiu que seu único objetivo e compromisso é "criar experiências que só podem ser vividas em uma sala de cinema". Falando sobre sua nova produção, que explora o resgate de mais de 400 mil soldados britânicos presos na cidade de Dunkirk durante a Segunda Guerra Mundial, Nolan disse que o tempo é um elemento fundamental. O filme acontece em três espaços, cada um com seu próprio temporizador: a angústia dos soldados, a tensão dos pilotos de resgate áereo e a aventura da divisão de resgate marítimo. "Mesmo um drama convencional tem um tempo de abordagem sofisticada. Gosto de fazer filmes que o processo é claro para o público, onde o público está ciente da relatividade mais interna do tempo. Manipulação do tempo é a história ", concluiu.

Ao ser questionado se seu filme não poderia ser considerado uma propaganda para o orgulho inglês após o Brexit, o diretor de 46 anos destacou que quando o referendo aconteceu, as gravações já haviam começado. "Pode haver ressonâncias para o público em geral, mas a história é atemporal e acho que o episódio de Dunkirk será sempre relevante, não só para os britânicos, mas para todos os europeus, incluindo os alemães. A razão é que fala de um momento de desespero na luta contra um mal esmagadora. O mundo poderia ter sucumbido ao mal e ainda não encontrou uma maneira de resistir, para se reagrupar e continuar lutando". Assim, para ele, não é uma questão de nacionalismo ou patriotismo, necessariamente.