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  • 16/07/2017
  • 11:50
  • Atualização: 12:18

Festival de Cinema de Gramado completa 45 edições comemorando resistência

Evento ocorre entre os dias 17 e 26 de agosto na Serra gaúcha

Evento terá estreia do primeiro filme original Netflix produzido no Brasil, “O Matador”, de Marcelo Galvão | Foto: Pedro Saad / Netflix / Divulgação / CP

Evento terá estreia do primeiro filme original Netflix produzido no Brasil, “O Matador”, de Marcelo Galvão | Foto: Pedro Saad / Netflix / Divulgação / CP

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  • Lou Cardoso

Fazer cinema no Brasil não é nada fácil. Desde a concepção da história até subirem os créditos finais nas salas de cinema é um longo caminho. Muitos nem fazem ideia do que acontece por trás das câmeras. Produzir um festival então, tampouco é um exercício tranquilo. Neste cenário, o Festival de Cinema de Gramado chega à 45ª edição de forma ininterrupta celebrando sua resistência em um País que já sofreu muito culturalmente.

Dos anos da Ditadura Militar, onde a censura predominava sobre a liberdade de expressão, até o fim da Embrafilme, que era responsável por fomentar a produção e distribuição de filmes brasileiros, o Festival arranjava estratégias de se manter ativo no Brasil, como fez quando integrou filmes latino-americanos na sua programação. Segundo o jornalista, crítico de cinema e um dos curadores do Festival Marcos Santuario, o evento é digno de aplausos. “O Festival nasceu e cresceu sendo o principal palco de exibição e da discussão cinematográfica brasileira. Fazer 45 anos sem nunca ter parado uma única edição merece aplausos”, reflete. “Passa governos, curadores, políticas econômicas e o Festival segue. Dentro dessa perspectiva de acompanhar o crescimento do movimento brasileiro, latino e mundial, a gente só tem que reverenciar essa gente que durante todo este tempo fez o Festival de Cinema de Gramado existir”, complementa.

Colega de Santuario na curadoria do Festival desde 2012, o jornalista especializado em cinema Rubens Ewald Filho relata que tanto o público quanto os realizadores desejam participar do evento. “O fim da Embrafilme matou tudo e a cidade de Gramado custou um pouco até se recuperar. Mas agora que voltou os olhares para o cinema, as pessoas ficam louquinhas para vir para cá”, brinca. Rubens também observa que o Festival só tende a crescer. “Graças ao sucesso dos últimos anos, em especial ao ano passado, tudo mudou paras pessoas verem que há uma possibilidade a mais em Gramado”, declarou.

Rubens e Santuario integram a curadoria do Festival de Cinema de Gramado desde 2012. A diretora argentina Ewa Piwowarski entrou para o grupo em 2014. O sonho de ter o filme vinculado com o Festival de Cinema de Gramado, que ocorre entre os dias 17 e 26 de agosto, é um dos prestígios que muitos diretores desejam ter no currículo. Mesmo que não conquiste um Kikito, o “selo Gramado” nos longas selecionados pela curadoria demonstra uma qualidade em cima daquele trabalho, garante Santuario. “Quando selecionamos um filme para Gramado, ele é exibido e ganha toda mídia cinematográfica, produz um diálogo e um selo de Gramado, pois ele passou por um processo de exibição, discussão e análise”, explicou.

Gramado é o novo Cannes

Observando as mudanças que também ocorrem no cinema, a dupla afirmou que a discussão de novas tecnologias e novas formas de exibição devem ser discutidas no universo cinematográfico. Aproveitando o embalo da polêmica do Festival de Cannes deste ano ao ter o filme produzido pela Netflix, "OKJA", entre os selecionados para mostra competitiva, a 45ª edição do evento serrano fará a primeira exibição do primeiro filme original Netflix produzido no Brasil, “O Matador”, de Marcelo Galvão.

“Eu briguei para trazer um filme do Netflix para cá, justamente para ter polêmica”, afirma Rubens. “Nós somos os primeiros a trazer um filme do Netflix, e Cannes fez aquele escândalo, foi uma burrice deles. Não se luta contra certas coisas. Com o progresso a gente não luta, a gente adere e se adapta”, opina o jornalista sobre levar filmes produzidos por plataformas on demand para as tradicionais salas de cinema.

Para Santuario, esta discussão de levar filmes produzidos pela Netflix é inevitável. “O cinema ainda pode ser um lugar de exibição, mas ele tem que abrir este caminho para outras formas de exibição. Gramado está aberto para isso e trazendo pessoas que inovam neste processo”, diz. “Nós estaremos parados no tempo e de costas para realidade, pois já existem diferentes maneiras de produzir, distribuir e exibir produções, e isso inclui o cinema que precisa ser repensado nessa ótica. A estratégia de distribuição do Netflix não inclui as salas de cinema e esta vai ser uma discussão muito interessante. Nós estamos aceitando o desafio e isto vai acontecer no Festival”, acrescenta.

Filmes inéditos e de qualidade

Projetando este aniversário significativo do Festival de Cinema de Gramado, Rubens acredita que a seleção deste ano foi a melhor já realizada pela curadoria. “Eu tenho a impressão que temos a melhor seleção desde que estou aqui. São filmes inéditos no Brasil, premiados e polêmicos”, analisa. “O que eu quero é melhorar as coisas para Gramado crescer, dos filmes só melhorarem e fazer novos cineastas serem revelados. Tudo isso me dá muito prazer e alegria”, pontua.

Conforme Santuario, o Festival vai exibir sete filmes inéditos no Brasil, sendo que quatro passaram somente em âmbito internacional e três são totalmente inéditos no País. “Os diretores querem Gramado como seu primeiro palco e estes filmes compõem um universo muito amplo da cinematografia contemporânea. Os diretores dialogam com novas possibilidades e é isso que a gente tenta apresentar todo ano para as pessoas entenderem que o cinema está mudando, o Brasil, o audiovisual estão mudando em vários aspectos”, afirma. “São filmes capazes de promoverem o diálogo mais amplo com o público, e isto inclui a cidade, o mercado e a crítica cinematográfica. Isso aproxima o cinema das pessoas.”, conclui.