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  • 24/03/2017
  • 14:12
  • Atualização: 10:55

Escritores eternizam Porto Alegre por meio da literatura

Cidade é cenário de obras importantes desde o século 19 até a contemporaneidade

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  • Rodrigo Celente

 A literatura é uma maneira representativa de reflexão histórica, política, econômica, social e cultural de um determinado tempo. É através dela que observamos, sentimos e expressamos o pensar de uma época e a cidade moderna, regida pelo signo do progresso e que tem as ruas como traço determinante, encontra nesta a parceira perfeita para ser eternizada. Nesta perspectiva, escritores como Caldre Fião, Paulino Azurenha, Mário Totta, Souza Lobo, Erico, Dyonélio, Josué, Assis Brasil, Kiefer e Daniel Galera registraram, cada um a seu tempo e estilo, Porto Alegre de maneira singular e a imortalizaram nas páginas de romances. Eles escreveram textos onde se cruzam o imaginário, a história, a memória da cidade e a cidade da memória ao longo destes 245 anos.

A estreia de Porto Alegre na literatura ocorre concomitantemente com o surgimento do romance no Rio Grande do Sul. A cidade, então com 75 anos, serve de cenário para a obra "A Divina Pastora", de Caldre Fião, de 1847. A história de Edélia, Almênio e Francisco ocorre durante a Revolução Farroupilha (1835-1845) e se passa toda na capital gaúcha.

Anos depois, em 1897, às vésperas da virada do século XIX para o XX, três escritores porto-alegrenses se reuniram, a fim de relatar aspectos da vida cotidiana, enfocando, sobretudo o desenvolvimento da cidade. Mário Totta, José Paulino Azurenha e José Carlos de Souza Lobo escreveram o romance "Estrychinina". A obra registra as transformações da Capital. Os passantes, os transeuntes, carroças, bondes e carros de passeio moviam-se pelas ruas da cidade, nas palavras marcadas e narradas pelos autores. É possível identificar os casarios antigos da Riachuelo, o comércio da Rua da Praia e as festas que ocorriam na Praça da Alfândega e no Menino Deus.

Quando chegamos ao século XX, Porto Alegre pulsa em ritmo frenético. É neste contexto que a menina Clarissa, personagem que dá nome ao livro de Erico Verissimo, vive suas aventuras na cidade. A obra, publicada em 1933, é o primeiro romance de Erico e conta a história da jovem Clarissa, então com 13 anos, que deixa o interior para estudar na capital. Ela vai viver na pensão da tia Eufrasina (Dona Zina). O lugar, um microcosmos da cidade, abriga pessoas de diferentes idades, personalidade e funções sociais. Porto Alegre aparece nos passeios da jovem com a tia pelo centro. Clarissa fica deslumbrada com os sons e a vida agitada de locais como a Rua da Praia.

 

Quatro anos depois, a alegria dá lugar ao sombrio e a angústia. Dyonélio Machado, psiquiatra e jornalista, publica em 1937 o romance "Os Ratos", obra perturbadora, asfixiante de uma cidade onde o dinheiro se torna a síntese das relações sociais. Através da vida de Naziazeno, funcionário público, endividado e cobrado para pagar a dívida com o leiteiro, Dyonélio expõe a visão cruel da miséria urbana. O personagem perambula pelas ruas de Porto Alegre atrás de dinheiro para pagar o leiteiro. Está tudo deserto, casas fechadas. Decide, então, ir ao Mercado. No trajeto observa a escassez de automóveis o silêncio. Ao final do dia, Naziazeno volta para casa com o dinheiro, coloca as notas em cima da mesa da cozinha, para ser recolhido pelo temido cobrador na manhã seguinte. Exausto, acredita escutar ratos roendo o maço de dinheiro, mas não encontra forças para saltar da cama e correr à cozinha a tempo de evitar um desastre. O pesadelo do dia acaba ficando pequeno comparado com a angústia e o sofrimento dessa situação absurda.

 

Moacyr Scliar estreia no romance também com Porto Alegre como cenário, mais especificamente o Bom Fim. Em "Guerra no Bom Fim", 1972, o escritor mistura fantasia e realidade para contar a história de um menino judeu que vivia em Porto Alegre no tempo da Segunda Guerra. O cenário é o bairro retratado de forma bucólica, mostrando os velhos arrabaldes da região.

"Camilo Mortágua", o flanêur às avessas, de Josué Guimarães, publicado em 1980, narra, através da vida do protagonista, setenta anos da história do Estado. Josué entrelaça os fatos mais marcantes do começo do século XX ao cotidiano, aos novos costumes e a uma nova Porto Alegre. Lugares como a avenida Independência, o parque Farroupilha, a avenida Osvaldo Aranha, a avenida João Pessoa, a Faculdade de Direito, a Santa Casa de Misericórdia, a Igreja da Conceição, aparecem no livro.

Luiz Antônio de Assis Brasil escolheu Porto Alegre como cenário do romance "Cães da Província" (1988). Assis Brasil constrói uma espécie de biografia ficcional do dramaturgo José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo (1829-1883), considerado um maluco na época. As andanças do personagem pelas ruas de Porto Alegre, especialmente na área central são características da obra.

Em 2002, Charles Kiefer transforma a Capital no habitat de um serial killer. Com "O Escorpião da Sexta-Feira", o escritor narra a história de Antônio, um ex-seminarista que deixou a cidade de Pau d’Arco para trabalhar na Cúria Metropolitana de Porto Alegre. Em uma tarde, enxerga Luísa, por quem se apaixona e cogita abandonar a vida dedicada a fé. Ela o engana, abandonando-o. Em profunda solidão, o protagonista redescobre a sua paixão antiga por escorpiões e passa a percorrer as boates e bares da zona Norte de Porto Alegre, especialmente na avenida Farrapos, para caçar prostitutas e matar uma a uma. Ele as leva para o seu apartamento, na Duque de Caxias, e lá, de posse de um escorpião raro e muito venenoso acaba com a vida das mulheres. A angústia do livro reside no fato do leitor ser cúmplice dos crimes. A frustração de ser abandonado ele despeja nessa rotina de mortes, atrás de um sentido para a sua vida.

 

A Porto Alegre contemporânea, violenta, individualista e caótica é o pano de fundo de "Meia-Noite e Vinte", do escritor Daniel Galera publicado em 2016. Três amigos se reencontram após a morte brutal de um amigo em comum. Meia-Noite e Vinte é um livro conciso, mas que ao mesmo tempo pincela uma gama vasta de assuntos. Galera faz um realismo entremeado com fluxo de consciência. A obra deixa transparecer uma sensação de mal-estar com a modernidade. Galera põe o dedo na ferida escancarar o ranço e a raiva presente nas relações sociais e virtuais.