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  • 05/06/2017
  • 15:40
  • Atualização: 17:09

Novo romance de Isabel Allende sugere esperança nos EUA de Trump

"Más allá del invierno" retrata a situação dos imigrantes e refugiados no país

Escritora lançou nova obra nesta segunda-feira, durante evento em Madrid | Foto: Pierre-Philippe Marcou / AFP / CP

Escritora lançou nova obra nesta segunda-feira, durante evento em Madrid | Foto: Pierre-Philippe Marcou / AFP / CP

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  • AFP

"Más allá del invierno" é uma história de esperança nos Estados Unidos de Donald Trump, que fez aparecer "o pior da sociedade americana", afirmou a escritora chilena Isabel Allende, ao apresentar nesta segunda-feira seu novo romance em Madri. Sem poupar críticas ao Republicano, "o pior que pode acontecer a um país", a autora disse em entrevista coletiva que sua última obra tem uma "carga política inevitável" diante dos incertos tempos atuais.

Com mais de 67 milhões de livros vendidos de uma obra traduzida a 35 idiomas, Allende trata em sua mais recente publicação da situação dos imigrantes e refugiados nos Estados Unidos através do personagem de Evelyn Ortega, uma jovem guatemalteca em situação irregular. Ambientado em Nova Iorque, o livro companha durante três dias acontecimentos que mudarão para sempre o trio, formado pela protagonista, Ortega - um professor universitário americano que decide ajudá-la -, e por uma de suas vizinhas, uma jornalista chilena.

O tema do livro, nascido de um encontro de Albert Camus ("No meio do inverno aprendi por fim que há em mim um verão invencível"), é "a capacidade de renascer, de recomeçar, de sempre haver esperança e otimismo" (tradução livre), algo aplicável, na opinião de Allende, tanto a pessoas como a países. Para a escritora, residente na Califórnia desde o final de 1980, esse otimismo atualmente é fundamental nos Estados Unidos, onde "o pior da sociedade americana está emergindo com Trump".

"Há uma emergência de todas aquelas coisas que se mantinham caladas, que existiam, mas que as pessoas não se atreviam a manifestar, de xenofobia, racismo, supremacia branca, misoginia", lamentou a autora de títulos de sucesso como "A casa dos espíritos" e "Eva Luna". Dura crítica de Trump, a sobrinha do ex-presidente chileno Salvador Allende chegou a brincar que o mandatário estadunidense "não sabe ler", ao ser perguntada sobre qual de seus livros ela lhe recomendaria.

Trump quer "construir essa muralha chinesa" na fronteira com o México e "pensa em deportar 11 milhões de pessoas" indocumentadas, o que disparou "uma sensação de medo" entre os imigrantes nos Estados Unidos. "Vocês conhecem centenas e centenas de casos de imigrantes" e o personagem de Evelyn "é a síntese de vários casos", explicou. Ela mesma, exilada da ditadura militar do Chile, defendeu as pessoas que partem em busca de um futuro melhor: "ninguém deixa tudo o que tem porque quer, e sim porque está fugindo de algo".

Apaixonada

"Quem são os que emigram? Gente jovem, disposta a trabalhar, gente criativa que tem valor e coragem, gente que vem enriquecer a sociedade, não vem nos tirar nada", disse Allende, reconhecendo que no Chile também tem aflorado o racismo com a recente chegada de estrangeiros. Sem ocultar sua antipatia por Trump, ela  confessou que, quando ele ganhou as eleições, chegou a cogitar deixar o país, mas conheceu um americano pelo qual se apaixonou.  Este homem a ajudou a sair de "uma espécie de inverno" pessoal, em que vivia desde que se separou de seu companheiro por 28 anos.

Ele lhe enviou mensagens todas as manhãs e todas noites durante cinco meses, mas aos 74 anos, sem tempo a perder, a escritora não hesitou em perguntar-lhe diretamente quando saíram para comer juntos: "Te interessa algo mais do que uma amizade?". "Este pobre senhor não teve chance de escapar", brincou.

Allende acredita que, assim como ela, que venceu o "inverno" pessoal, os Estados Unidos conseguirão superar "o inverno político" que atravessa e chegarão a "um verão invencível". Considerada uma das escritoras latino-americanas mais populares no mundo, a autora recebeu em 2014 a máxima condecoração civil americana, a Medalha da Liberdade, das mão de Barack Obama.