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  • 17/06/2017
  • 12:08
  • Atualização: 12:14

Aumenta esta guitarra, xiru

Resistência à guitarra elétrica teve ponto alto em 1967 com passeata em São Paulo

Edu Lobo defendeu sua música

Edu Lobo defendeu sua música "Ponteio" no Festival de Música Brasileira | Foto: Arquivo Record / Divulgação / CP

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  • Correio do Povo

  * Por Frank Jorge, músico e professor da Unisinos

Assim como é inútil pressupor que uma marcha contra um instrumento musical poderia resgatar ou proteger “o que é nosso”, marcha esta ocorrida em 17 de julho de 1967 em São Paulo, seria imaginar que Michel Temer e sua corja moralizariam o país através de uma manobra política em maio de 2016, manobra esta mais conhecida como golpe, e ainda, com a conivência de muitos partidos políticos e setores da sociedade organizada.

Mas, vamos a alguns fatos: em 1967 o Brasil contava com três anos de ditadura militar; o presidente Castello Branco falecia em um misterioso acidente aéreo e Costa e Silva assumia a presidência dando início ao período mais truculento da ditadura, se é que se pode estabelecer gradações no medonhismo todo de um período de cerceamento de liberdades; Che Guevara é fuzilado na Bolívia; a América Latina se torna palco de golpes militares orquestrados por setores conservadores e influência estadunidense como se a ameaça comunista/ socialista típica da Guerra Fria fosse algo a ser combatido; os The Beatles, após “infinitos” três meses de gravação no estúdio da gravadora EMI em Londres, lançavam em 1º de junho, o álbum “Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band” elevando rock e cultura POP ao status de arte abordando temas como jovens saindo de casa (“She’s Leaving Home”), projeção bem humorada da chegada da velhice (“When I’m Sixty Four”) e outras sacadas contraculturais e artístico-estéticas como unir guitarra, baixo e bateria, instrumentos identificados com a música popular, com instrumentos de orquestra, numa espécie de grande fanfarra psicodélica.

Surgia em Londres o primeiro disco de uma banda que explorava extensas atmosferas sonoras em suas apresentações ao invés de canções pré-determinadas de poucos minutos, “The Piper at Gates of Dawn”, do Pink Floyd; na costa leste, em Nova York, “The Velvet Underground and Nico”, era o disco que trazia urbanidade, roupas e óculos escuros, dicções das ruas e becos e a POP Art de Warhol, para o rock; na Califórnia (US) em 18 de junho de 1967 ocorreu o Monterey Pop Festival, uma espécie de pré-Woodstock (1969) onde o clima de paz e amor anti-guerra-do-Vietnam, consolidou o apogeu precoce de dois então jovens guitarristas como Jimi Hendrix, que tinha lançado o primeiro álbum, “Are You Experienced”, e Pete Townshend (The Who), já com o seu terceiro álbum, na época, “The Who Sell Out”.

Ainda: em outubro de 1967 ocorreria o III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. O vencedor foi Edu Lobo, com a música “Ponteio” (Edu Lobo / Capinam) defendida justamente por Edu e Marília Medaglia, mas quem causou furor foram os tropicalistas, Gilberto Gil com Os Mutantes, defendendo “Domingo no Parque”, uma narrativa POP com arranjo de Rogério Duprat que misturava Sgt Peppers, capoeira, e uma briga de José e João por Juliana tendo um parque de diversões como cenário, e Cae>tano Veloso, com os argentinos dos Beat Boys, interpretando “Alegria Alegria”, uma marcha-rancho com ares psicodélicos, evocando irreverência e resistência ao período de trevas, ao sugerir uma caminhada “sem lenço / sem documento/ nada no bolso / ou nas mãos”.

Como podemos ver, em 1967, o mundo girava rápido. A cultura POP e a utopia socialista em outros continentes, muito além da China, Cuba e URSS, eram decididamente duas das principais armas contra obscurantismos. A impressão que se tem olhando agora, passados 50 anos, é que o mundo tinha ânsia por mudança, por liberdade, por novas direções. Pois bem, a “Passeata Contra A Guitarra Elétrica”, aconteceu em 17 de julho de 1967, em São Paulo, saindo do Largo São Francisco, chegando diretamente no Teatro Paramount, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde ocorreria o programa Frente Ampla da MPB. Seus slogans: “Defender O que É Nosso” e a “Passeata da MPB”.

Passado tanto tempo e sabendo dimensionar as reais contribuições que os protagonistas da esdrúxula passeata possibilitaram à cultura nacional, o esforço é entender esta angulação e toda a sua radicalidade: a passeata era contra um instrumental musical que em outros países ajudava a materializar novos rumos para a música, sendo explorada de várias formas, e jamais carregando a pecha de instrumento de dominação a serviço de alguma ideologia específica. A motivação da passeata, mesmo descabida, era clara: uma preocupação em defender matizes, sonoridades, a temida invasão estrangeira (aqui, através da música/ imposição cultural) num período de fragilidade e incertezas sobre o próprio destino de cada um e do país.

As principais presenças foram Elis Regina, Geraldo Vandré, Jair Rodrigues, Zé Keti, Edu Lobo e MPB-4. O então artista emergente na cena cultural de São Paulo, o baiano Gilberto Gil, aderiu pela relação próxima que tinha com estas pessoas, e posteriormente, fez um certo mea-culpa da sua presença no evento, assim como, concluiu com a devida clareza em depoimentos sobre a inutilidade da passeata. Um ponto interessante a ser destacado é que tanto Elis Regina como Gilberto Gil viriam a gravar discos em que o papel da guitarra elétrica tinha destaque; a saber, o disco “Falso Brilhante” (1976), que teve uma turnê de grande êxito pelo país do final de 1975 até início de 1977, contando sua história, vida e carreira, com direito à críticas à ditadura militar brasileira, num clima de teatro circense. Gilberto Gil, por sua vez, gravou inúmeros discos com a presença da guitarra, como “Refazenda”, “Realce” e muitos outros. Este dado comprova um ponto a favor dos dois artistas, que assim, mostraram sua capacidade de reflexão e mudança de ponto de vista e vieram a reconhecer os recursos e possibilidades do instrumento.


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