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  • 22/09/2017
  • 16:17
  • Atualização: 17:32

"Só o teatro salva", diz Amir Haddad em debate do Porto Alegre em Cena

Diretor de "Antígona" falou de tragédias gregas, Brecht, Shakespeare no final da manhã pelo Debates em Cena

Amir Haddad:

Amir Haddad: "O ator precisa conjugar mais o verbo estar do que ser" | Foto: Luiz Gonzaga Lopes / Especial / CP

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  • Luiz Gonzaga Lopes

O diretor da peça "Antígona", Amir Haddad, apresentou uma palestra gratuita sobre a tragédia grega no teatro brasileiro, entre outros assuntos como o seu processo de desmontagem, de desconstrução de um texto, além de Shakespeare, Brecht, Lorca, no final da manhã desta sexta-feira, Atelier Livre no Centro Municipal de Cultura (Erico Verissimo, 307). O encontro faz parte do projeto Debates em Cena, do 24º Porto Alegre em Cena, que teve na tarde desta sexta, o debate "O Movimento Trans nas Artes", com a atriz Renata Carvalho e a diretora Natalia Mallo, de "O Evangelho Segundo Jesus Rainha do Céu" e o psicanalista Sergio Lewkowicz, da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Além de ministrar a palestra, Haddad está na cidade para acompanhar as apresentações do espetáculo "Antígona", com última sessão na noite desta sexta, dirigido por ele e protagonizado por Andrea Beltrão (que estava presente ao debate), em cartaz, no Theatro São Pedro.

No início da sua fala, Amir Haddad falou da conjugação do verbo ser/estar (to be do inglês) no palco. "Em 'Hamlet', de Shakespeare, o to be or not be trata da dúvida, do que o príncipe da Dinamarca faz em relação ao assassinato do pai e uma conspiração do tio e da mãe. É a tragédia da dúvida. O ator precisa conjugar mais o verbo estar do que o ser. Como diria Bertolt Brecht: Entra no camarim é ator, entra no palco é rei. A mais antiga das entregas humanas é a do teatro e deve ter ancestralidade", afirmou Haddad, 80 anos, que citou Carlos Drummond de Andrade para dizer o quanto não gosta do conceito de modernidade e contemporaneidade no teatro: "Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno".

Um dos assuntos abordados pelo veterano diretor foi a situação do país, a partir da analogia sobre a vontade do povo e de Creonte, o governante, em "Antígona", de Sófocles. "Todo o teatro clássico reflete a humanidade. Quando montamos este espetáculo, não pensamos no subtexto da atualidade, nesta podridão que aí está. Existe uma fala do Creonte na peça que reflete o que os governantes pensam. Como é o texto mesmo, Andrea?", pergunta à atriz sentada ao fundo. Ela responde: "Não se pergunta ao solo se ele deseja a lâmina do arado". Haddad continua: "Estamos sendo partidos pela lâmina do arado. Já passei por uma ditadura militar, pelo segundo mandado do Fernando Henrique Cardoso. Não sabia que íamos chegar até este ponto. Precisamos de mais atores, de mais festivais, de mais teatro no mundo. Só o teatro salva", constata.

O diretor também consegue ver o lado bom da crise institucional e na cultura. "Antes era só Lei Rouanet e incentivos fiscais. Houve benefícios, mas também malefícios. Da cinza destas ruínas, ressurgiu algo. Não temos mais cachês milionários para uns poucos atores e diretores. A esperança é a penúltima que morre. O ator é o último. É o profeta cênico. Hoje temos o pós-teatro, estamos saindo do teatro realista e separando melhor o ator e o personagem. O ator precisa ter domínio do que está fazendo, mas não ser possuído pelo papel. Brecht chama isto de distanciamento".

Haddad também falou um pouco do seu método de desconstrução de textos clássicos ou pouco montados, que levam três, quatro, cinco meses de trabalho sem ter ainda o projeto de uma peça. "Faço teatro há 60 anos. Já dirigi 200, 300 peças, perdi a conta. Preciso desmontar o modo de produção, de trabalhar o coletivo, a economia dos afetos. Chamo os atores, fico três, quatro, cinco meses trabalhando o texto até que a peça se entregue a todos. Ninguém tem papel fixo. Montei Shakespeare e Pirandello assim, com Nelson Rodrigues ("Anjo Negro"), eu só fiz a desmontagem", destaca o diretor que está envolvido em projetos com Maitê Proença: "A Mulher de Bach" e com Miguel Colker, filho de Deborah Colker: "A Mulher Invisível".

O Debates em Cena foi pensado especialmente a partir dos espetáculos presentes na programação do Em Cena. O 24º Porto Alegre em Cena é apresentado pelo Ministério da Cultura, Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Petrobras e Braskem, com patrocínio Panvel, Zaffari, Rio Grande Seguros e InBetta. Apoio cultural VitLog Transportes, Opus, Fiergs e Sesi. Agenciamento cultural Primeira Fila Produções e transporte oficial 99 POP. O festival é financiado através do Pró-cultura RS, Lei de Incentivo à Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Sul, em uma realização da Prefeitura de Porto Alegre e do Ministério da Cultura, Governo Federal.