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  • 07/10/2017
  • 09:40
  • Atualização: 09:47

Projeto social WimBelemDo encara risco de fechar as portas

ONG que atende crianças na Zona Sul cancela o seu principal evento anual devido a crise financeira

Marcelo Ruschel, com algumas crianças atendidas pelo projeto no bairro Belém Novo | Foto: Samuel Maciel

Marcelo Ruschel, com algumas crianças atendidas pelo projeto no bairro Belém Novo | Foto: Samuel Maciel

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  • Amauri Knevitz Jr.

Tal qual um tenista em vias de ser eliminado de uma competição, mais uma vez o WimBelemDon tem contra si um match point. O projeto social da zona Sul de Porto Alegre, que usa o tênis como mote para proporcionar melhores condições de vida e educação a cerca de cem crianças todo ano, corre sério risco de fechar as portas.

Nesta semana, a ONG anunciou que não realizará seu evento anual, o Rolando Arroz, após oito anos. Sem patrocínio garantido, a instituição não quer se expor ao risco de arcar com algum eventual prejuízo, ainda que as edições anteriores tenham sido superavitárias, mesmo as que também não tiveram patrocínio.

O evento deste ano, que aconteceria em novembro, como de costume, já tinha a participação confirmada de Bia Haddad Maia, tenista número 1 do Brasil e 59 do mundo, além dos embaixadores do projeto, Bruno Soares, Thomaz Koch e Fernando Meligeni. “Como fundador, sou um otimista incurável. Como superintendente, tenho que ser realista. Os números dizem que, se nada acontecer, em fevereiro ou março encerraremos as atividades”, lamenta o responsável pelo projeto, Marcelo Ruschel.

O cancelamento do nono Rolando Arroz é o maior sinal da grave crise pela qual passa o premiado projeto, que desde 2003 tem transformado a vida de centenas de crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. O esporte é só o chamariz, como destaca Ruschel. Além das aulas em quadra, os alunos contam com uma grande variedade de atividades extracurriculares, que inclui português, matemática, inglês, cinema e até mesmo uma oficina de bem-estar. Tudo isso pode acabar se novos mantenedores não aparecerem até os primeiros meses de 2018.

A primeira ocasião em que o projeto esteve ameaçado foi em 2008, quando, em meio à crise financeira internacional, perdeu seu principal mantenedor. Em 2015, já em outro patamar de organização e profissionalismo, um susto: o dono do terreno alugado informou que venderia o local. Eram necessários R$ 400 mil para adquiri-lo em definitivo, ou dar adeus. Foi quando os embaixadores entraram em ação para salvar o projeto. A mobilização para o crowdfunding (financiamento coletivo) chegou até tenistas como Rafael Nadal, que doou raquetes e equipamentos para servirem de recompensa a patrocinadores. Resultado: em poucos meses, o valor que parecia inalcançável foi conquistado.

Cerca de 90% dos recursos do WimBelemDon são provenientes de doações, a maioria via dedução de imposto de renda. E a fonte está secando. Mesmo com o alívio causado pelo fim do aluguel há dois anos, a conta não está mais fechando. “Chega uma hora que cansa depender de milagres”, desabafa Ruschel. “Tivemos várias situações ruins, mas nunca chegamos a esse ponto de ficar a meses de fechar”.

Dezessete anos depois de alugar a quadra de tênis abandonada no seu bairro, o Belém Novo, em 2000, e dar início ao único projeto brasileiro premiado pela ATP com o “Aces For Charity”, o fotógrafo Marcelo Ruschel, definido por Fernando Meligeni como “um louco abnegado”, conta que enfrenta ainda um certo preconceito. Já ouviu que comanda uma “ONG rica”, que ensina “um esporte de burguês”. E sofre com a burocracia governamental para liberação das verbas. “Houve atrasos recorrentes que nos fizeram atrasar salários, erros burocráticos que nos prejudicaram... Em alguns momentos, tivemos que despender o superávit de alguns eventos para pagar despesas. Aí, uma hora, acaba a poupança”, relata.

O projeto já diminuiu o quadro de funcionários e enxugou gastos. Por priorizar a qualidade do atendimento, não tem mais onde cortar, segundo Ruschel. A esperança desta vez está em uma campanha internacional, “Abrace o WimBelemDon”, que é parte de uma ação maior chamada “Abrace o Brasil”, realizada pela Brazil Foundation para ajudar cem ONGs brasileiras. A doação é dedutível do IR norte-americano, por isso a instituição pede que apoiadores divulguem a campanha a empresas e indivíduos baseados legalmente nos Estados Unidos. “As principais razões pelas quais as pessoas não doam são a falta de credibilidade e de transparência, e isso nós temos de sobra, basta ver os nomes que nos apoiam”, diz Ruschel (ver quadro ao lado).