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  • 07/10/2017
  • 10:45
  • Atualização: 10:54

Pecuarista alerta que governo uruguaio precisa estar atento às mudanças sanitárias do Brasil

O receio do Uruguai está também baseado no impacto que a pecuária tem para a economia do seu país

Gabriel e Gustavo Riani no Uruguai, país que é reconhecido mais pela qualidade do que pela quantidade de sua produção de carne | Foto: Mauro Schaefer

Gabriel e Gustavo Riani no Uruguai, país que é reconhecido mais pela qualidade do que pela quantidade de sua produção de carne | Foto: Mauro Schaefer

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  • Correio do Povo

A paisagem bucólica da Ruta 30, no Norte do Uruguai, guarda muitas semelhanças com o lado brasileiro da fronteira, como a vegetação típica e a predominância do gado europeu. É naquela região que está localizada a Cabanha Macedo, um dos maiores criatórios de Angus do país sócio do Brasil no Mercosul, com cerca de 10 mil cabeças.

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Filho de pai uruguaio e mãe brasileira, o pecuarista Gabriel Riani, que nasceu em Artigas, mas morou em Porto Alegre, não vê como descabida a ideia do Brasil de retirar a vacina contra a febre aftosa. Porém, tem dúvidas se este é o momento adequado para adotar a medida. “Fico mais tranquilo com a posição do governo uruguaio de manter a vacinação”, confessa. A justificativa utilizada pelo governo brasileiro, de facilitar a abertura de novos mercados, também é vista com reservas. “O Uruguai, sendo livre com vacinação, tem excelentes mercados”, ressalta. Os uruguaios exportam carne bovina para os Estados Unidos — mercado que está fechado para o Brasil em razão de abscessos encontrados na carne - e recentemente obtiveram também a abertura do mercado norte-americano para a carne ovina com osso.

O receio dos uruguaios está baseado, também, no impacto que a pecuária tem para a economia daquele país. Com um rebanho de 11,8 milhões de cabeças — menor do que o rebanho gaúcho, que é de 13,5 milhões —, o Uruguai é reconhecido mais pela qualidade do que pela quantidade da sua produção, embora tenha acesso a mais de 100 mercados. “Es lo que nos toca vivir”, define Riani, recorrendo a uma frase usual do outro lado da fronteira.

“O Uruguai termina muito gado a pasto, isso faz muita diferença”, resume. Por isso, segundo o criador, é necessário que as autoridades sanitárias do Uruguai prestem atenção às medidas adotadas pelo Brasil. “O Uruguai tem muita fronteira seca com o Brasil. A aftosa vem no pneu dos carros, no ar. Isso requer treinamento das autoridades sanitárias”, observa.

Pai de Gabriel, o pecuarista uruguaio Gustavo Riani tem viva a lembrança do último foco da doença registrado exatamente em Artigas, há 17 anos. “O município ficou isolado e os produtores foram indenizados. Voltamos a ser área livre com vacinação”, recorda.

O Uruguai havia sido declarado livre de aftosa sem vacinação em 1996. Após o surto registrado no início da década passada, a vacinação naquele país foi retomada. Hoje, os uruguaios não pensam mais em retirar a vacinação. “Não estou de acordo”, resume Gustavo, sobre a decisão do Brasil, que ele acredita que deveria ter sido discutida em conjunto entre os países da região.

Preocupação brasileira

Em Livramento, onde produtores relatam ser comum ver o gado transitar livremente nos “corredores” da fronteira com Rivera, no Uruguai, o presidente do Sindicato Rural, Luiz Cláudio Andrade, afirma que vê a retirada da vacina de duas formas. A primeira é a abertura de novos mercados para a carne brasileira, em especial a suína (espécie suscetível, mas não portadora da doença), já que mercados mais exigentes, como o Japão, somente adquirem produtos de países que não vacinam o seu gado.

Por outro lado, há a desconfiança com relação ao controle sanitário dos países vizinhos. Em razão disso, ele acredita ser necessário um reforço na fiscalização. “Fico muito preocupado porque vejo o governo com dificuldade de recursos, contingenciamento de verbas, não só no Estado, mas no país”, afirma Andrade. Outro problema comum na região, segundo ele, é a presença do javali e do javaporco - oriundo do cruzamento do javali com o suíno doméstico -, animais que pode transmitir diversas doenças, entre elas a aftosa.

Para o presidente do Sindicato Rural de Uruguaiana, Sérgio Tellechea, a retirada da vacina é um processo inevitável. No entanto, para que isso ocorra, ele defende que os órgãos de controle estejam bem aparelhados, especialmente nas áreas de fronteira. “As inspetorias veterinárias têm pessoal capacitado. Nosso medo é de que faltem recursos para que eles atuem fazendo esse controle”, observa.