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  • 09/09/2017
  • 13:38
  • Atualização: 13:52

Cabanha de Quaraí tem 90% da propriedade ocupada por campos nativos do bioma Pampa

Gerente conta que família sempre manteve interesse na preservação

Dedicação exclusiva à pecuária em campos nativos tem gerado reconhecimento à Cabanha São Fernando, de Quaraí | Foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação / CP

Dedicação exclusiva à pecuária em campos nativos tem gerado reconhecimento à Cabanha São Fernando, de Quaraí | Foto: Fernando Cavalcanti / Divulgação / CP

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  • Correio do Povo

Entre as 140 propriedades que integram a Alianza del Pastizal no Rio Grande do Sul está a Cabanha São Fernando, de Quaraí, que ingressou oficialmente neste ano. Dos 3,8 mil hectares da propriedade, 90% são ocupados por campos nativos do bioma Pampa. O gerente-proprietário, Fernando Preis Cavalcanti, que faz parte da quarta geração à frente da cabanha, conta que desde sempre a família manteve o interesse na preservação ambiental. “É um tesouro que temos”, afirma. E é justamente sobre os campos em bom estado de conservação que a cabanha conquista reconhecimento pela qualidade do seu rebanho.

Na Expointer deste ano, a fazenda chegou ao quarto título consecutivo no grande campeonato da raça Hereford. O tetracampeonato foi comemorado pelo proprietário João Souza Cavalcanti, na pista de julgamento, ao lado do touro bicampeão São Fernando Ceibal 8469. A propriedade não conta com lavouras. Ela é destinada exclusivamente à criação das raças de bovinos Hereford e Braford e de ovinos Merino Australiano. “Criamos Hereford, que é uma raça bem exigente, há quase 100 anos, e a espécie está muito bem adaptada ao campo nativo”, relata Fernando.

O gerente-proprietário explica que, para aumentar a produtividade das pastagens, sem degradá-las, se utilizam técnicas como roçadas e adubação. Segundo ele, outras duas propriedades pertencentes à família, em Uruguaiana e Alegrete, também preenchem os requisitos para conseguir a certificação da Alianza, que será buscada em breve. “Dentro de um grupo como o da Alianza os produtores se sentem mais fortes para continuar preservando o bioma”, afirma Cavalcanti, para observar que é visível o crescimento do programa e do interesse de pecuaristas na adesão.

Além da conservação da natureza, a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, Élen Silveira Nalério, explica que a criação do rebanho a pasto, com o uso de poucos insumos, garante atributos favoráveis à carne, de aroma, sabor e um perfil mais saudável, na comparação com animais criados em confinamento e alimentados com grãos.

Segundo Élen, pesquisas em andamento indicam que a carne proveniente das pastagens naturais tem mais vitamina E, que é um antioxidante natural, e apresenta uma relação de ômega 3 por ômega 6 mais benéfica à saúde humana. “Um contrafilé tem em torno de 3% de gordura”, destaca, lembrando que esse percentual é semelhante ao de um peito de frango sem pele. “Não podemos afirmar que temos a melhor carne do mundo, mas temos algo diferenciado, com espécies bem adaptadas aos campos e um sistema produtivo que não se encontra no Brasil central”, acrescenta.

Se faz bem para a natureza e para a saúde humana, a pecuária sobre as pastagens naturais também pode render mais economicamente. Segundo o doutor em Zootecnia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Carlos Nabinger, pesquisas mostram que no sistema de recria e terminação nos campos nativos é possível produzir de 200 a 230 quilos de peso vivo por hectare ao ano, quase quatro vezes mais do que a média de produtividade do Estado, somente usando a natureza como ela se apresenta.